quinta-feira, 21 de junho de 2012

Introdução ao Realismo Fantástico (Louis Pauwels & Jacques Bergier)

"Todas as bolas no mesmo saco. - Os desesperos do historiador. - Dois amadores do insólito. - No fundo do Lago do Diabo. - Um antifascismo oco. - Bergier e eu perante a imensidão do  extraordinário. - Tróia também era uma lenda. - A história em atraso. - Do visível banal ao invisível fantástico. - Apólogo do escaravelho de ouro. Pode ouvir-se a ressaca do futuro. - Não há apenas as frias mecânicas.

Durante a ocupação alemã vivia em Paris, no Bairro Latino, um velho original que se vestia como um burguês do século XVII, só lia Saint-Simonl, comia à luz de velas e tocava espineta. Apenas saía para ir ao merceeiro e ao padeiro, com um capuz sobre a cabeleira empoada, e uma grande capa que deixava ver as meias pretas e os sapatos com fivelas. O tumulto da Libertação, os tiros e os movimentos populares perturbaram-no. Sem nada compreender, mas agitado pelo medo e pelo furor, precipitou-se um dia para a sacada da sua casa, com a pena de pato na mão, peitilho de rendas ao vento, e gritou, numa vibrante e estranha voz de solitário:
Viva Coblença!
Não compreendendo e estranhando a atitude insólita, os vizinhos excitados sentiram instintivamente que o homenzinho vivia noutro mundo e devia estar em relações com o mal. O grito pareceu alemão, subiram as escadas, arrombaram a porta, atacaram-no e ele morreu.
Nessa mesma manhã, um capitão resistente muito jovem, que acabava de conquistar a Prefeitura, mandava colocar palha sobre os tapetes do enorme gabinete e dispor as espingardas em forma de feixe, a fim de ter a ilusão de viver de acordo com um boneco do seu primeiro livro de história.
Nessa mesma hora descobriam nos Inválidos a mesa, os treze caldeirões, os estandartes, as túnicas e as cruzes da última assembléia dos Cavaleiros da Ordem tectônica, bruscamente interrompida.
E o primeiro tanque do exército de Leclerc transpunha a Porte d'Orléans, sinal humilhante da derrota alemã. Era conduzido por Henri Rathenau, cujo tio Walther fora a primeira vítima do nazismo. Como um homem vítima da maior emoção, assim uma civilização vê, num momento histórico, reviver mil instantes do seu passado, segundo uma escolha e numa sucessão aparentemente incompreensível.
Giraudoux contava que, tendo adormecido um segundo na ameia de uma trincheira enquanto aguardava a hora de ir render um camarada, morto em reconhecimento, fora acordado por picadas no rosto: o vento acabava de despir o morto, de lhe abrir a carteira e fazer voar cartões de visita, cujos cantos fustigavam a face do poeta. Naquela manhã da Libertação de Paris, os cartões de visita dos emigrados de Coblença, dos estudantes revolucionários de 1830, dos grandes pensadores judeus alemães e dos Irmãos Cavaleiros das Cruzadas esvoaçavam juntamente com muitos outros, sem dúvida, no meio do vento que levava até muito longe os gemidos e as Marselhesas.
Se agitarmos o cesto, todas as bolas vêm à superfície em desordem, ou antes, segundo uma ordem e atritos cujo controlo seria infinitamente complicado, mas onde poderíamos descobrir uma infinidade desses encontros singularmente elucidativos a que Jung chama coincidências significativas. A admirável frase de Jacques Rivière aplica-se às civilizações e seus momentos históricos: Acontece a um homem não o que ele merece, mas o que se lhe assemelha. Um caderno escolar de Napoleão termina com estas palavras: Santa Helena, pequena ilha.
É lamentável que o historiador ache indigno da sua ciência o recenseamento e o exame dessas coincidências significativas, desses encontros que têm um sentido e entreabrem bruscamente uma porta sobre outra face do Universo, onde o tempo já não é linear. A sua ciência está em atraso sobre a ciência em geral, que, tanto no estudo do homem como no da matéria, mostra-nos cada vez mais reduzidas as distâncias entre o passado, o presente e o futuro. Separam-nos sebes cada vez mais estreitas no jardim do destino, de um passado conservado por inteiro e de um amanhã inteiramente formado. A nossa vida, como diz Alain, está aberta sobre grandes espaços.
Existe uma flor extremamente frágil e bela que se chama a saxífraga umbrosa. Também lhe chamam o desespero do pintor. Já não desespera nenhum artista, desde que a fotografia e muitas outras descobertas libertaram a pintura da preocupação da semelhança exterior. O pintor menos jovem de espírito não se senta hoje diante de um ramo de flores como o teria feito outrora. Os seus olhos vêem mais qualquer coisa além do ramo, ou antes, o modelo serve-lhe de pretexto para exprimir por meio da superfície colorida uma realidade escondida para o olhar profano. 
Ele tenta arrancar um segredo à criação. Outrora contentar-se-ia em reproduzir o que o profano vê quando passeia sobre as coisas um olhar descuidado, ausente. Ter-se-ia contentado em reproduzir as aparências tranqüilizantes e, de certa maneira, em participar da fraude geral sobre os sinais exteriores da realidade. Ah, isto está escarrado! Mas quem escarra está doente. Não parece que o historiador tenha evoluído como o pintor, no decurso deste meio século, e a nossa história é falsa como o eram um seio de mulher, um gatinho ou um ramo de flores sob o pincel petrificante de um pintor conformista de 1890. Use a nossa geração, diz um jovem historiador, pretende examinar lucidamente o passado, terá em primeiro lugar de arrancar as máscaras sob as quais os artífices da nossa História se mantêm desconhecidos. . . O esforço desinteressado realizado por uma falange de historiadores em favor da simples verdade é relativamente recente.
O pintor de 1890 tinha os seus desesperos. Que dizer do historiador do presente! A maior parte dos fatos contemporâneos tornaram-se semelhantes à saxífraga umbrosa: desesperos do historiador.
Um autodidata delirante, rodeado de alguns megalômanos, recusa Descartes, despreza a Cultura humanista, destrói a razão, invoca Lúcifer e conquista a Europa, perdendo por pouco a conquista do Mundo. O marxismo enraíza-se no único país que Marx achava infecundo. Londres arrisca-se a soçobrar sob uma chuva de foguetões destinados a atingir a Lua. Reflexões sobre o espaço e o tempo conjugam-se na fabricação de uma bomba que destrói duzentos mil homens em três segundos e ameaça destruir a própria história. Saxífragas umbrosas!
O historiador começa a inquietar-se e a duvidar de que a sua arte seja praticável. Perde o seu talento lamentando já não o poder exercer. É o que se vê nas artes e nas ciências nos períodos de sufocação: um escritor trata em dez volumes da impossibilidade da linguagem, um médico dá aulas durante cinco anos para explicar que as doenças se curam por si próprias. A história atravessa um desses momentos.  
Raymond Aron, desprezando com enfado Tucídides e Marx, constata que nem as paixões humanas, nem a economia dos fatos chegam para explicar a aventura das sociedades. A totalidade das causas que determinam a totalidade dos efeitos ultrapassa, diz ele desolado, o entendimento humano.  
O sr. Baudin, do Instituto, confessa: a história é uma página em branco que os homens têm a liberdade de preencher à sua vontade.
E René Grousset dirige ao céu vazio este cântico quase desesperado, mas belo:
Aquilo a que nós chamamos a história, quero dizer, este desenrolar de impérios, de batalhas, de revoluções políticas, de datas, sangrentas a maior parte, será realmente a história? Confesso que não o creio, e que me acontece, ao ver os manuais escolares, riscar em pensamento uma grande parte. . .
A verdadeira história não é aquela do movimento das fronteiras. É a das civilizações. E a civilização é, por um lado, o progresso das técnicas e, por outro, o progresso da espiritualidade. Podemos perguntar a nós próprios se a história política não é, em grande parte, uma história parasita.
A verdadeira história é, sob o ponto de vista material, a das técnicas, disfarçada sob a história política que a oprime, que lhe usurpa o lugar e até mesmo o nome.
Mas, mais ainda, a verdadeira história é a do progresso do homem na espiritualidade. A função da humanidade é auxiliar o homem espiritual a libertar-se, a realizar-se, a auxiliar o homem, como dizem os hindus numa fórmula admirável, a ser aquilo que é. É certo que a história aparente, a história visível, a história da superfície não passa de um ossuário. Se a história fosse apenas isso, não havia mais nada a fazer senão fechar o livro e desejar a extinção no nirvana... Mas quero crer que o budismo mentiu e que a história não é isso.
O físico, o químico, o biólogo, o psicólogo sofreram, nestes últimos cinqüenta anos, grandes choques e tropeçaram, por sua vez, em saxífragas umbrosas. Mas hoje não manifestam a mesma inquietação. Trabalham, avançam. Muito pelo contrário, há na suas ciências extraordinária vitalidade. Comparem-se as construções acrobáticas de Spengler ou de Toynbee ao movimento torrencial da física nuclear. A história está num beco sem saída. As razões, sem dúvida, são múltiplas, mas esta impressionou-nos:
Ao passo que o físico ou o psicanalista abandonou resolutamente a idéia de que a realidade era necessariamente satisfatória para a razão e optou pela realidade do fantástico, o historiador manteve-se encerrado no cartesianismo. Uma certa pusilanimidade muito política nem sempre é alheia ao fato.
Diz-se que os povos felizes não têm história. Mas os povos que não têm historiadores franco-atiradores e poetas são mais que infelizes: asfixiados, traídos.
Voltando as costas ao fantástico, por vezes o historiador é levado a erros extraordinários. Marxista, prevê o desmoronamento da economia americana no momento em que os Estados Unidos atingem o mais alto nível de estabilidade e de poder. Capitalista, determina no Oeste a expansão do comunismo no momento em que a Hungria se revolta. No entanto, noutras ciências, a previsão do futuro, a partir dos dados do presente, tem cada vez mais êxito.
A partir de um milionésimo de grama de plutônio, o físico nuclear faz o projeto de uma fábrica gigantesca que funcionará de acordo com o que foi previsto. A partir de alguns sonhos, Freud desvenda a alma humana como nunca foi feito.  
É que Freud e Einstein realizaram, no início, um colossal esforço de imaginação. Imaginaram um real completamente diferente dos dados racionais admitidos. A partir dessa projeção imaginativa estabeleceram conjuntos de fatos que a experiência verificou.
No domínio da ciência aprendemos quão vasta é a estranheza do mundo, diz Oppenheimer.
Que esta aceitação da estranheza possa enriquecer a história, é do que estamos persuadidos.
Não pretendemos de forma alguma produzir no método histórico as alterações que lhe desejamos. Mas pensamos que o pequeno esboço que vão ler pode prestar algum serviço aos futuros historiadores. Seja estímulo, seja repulsão. Pretendemos, ao tomar como objeto de estudo um aspecto da Alemanha hitleriana, indicar vagamente uma direção de pesquisas válida para outros assuntos. Traçamos flechas sobre as árvores ao nosso alcance. Mas não pretendemos ter tornado praticável toda a floresta.  
Procuramos reunir fatos que um historiador normal repudiaria com cólera ou horror. Transformamo-nos por algum tempo, segundo a bela frase de Maurice Renard, em amadores do insólito e escribas de milagres. Este gênero de trabalho nem sempre é confortável para o espírito. Por vezes tranqüilizavamo-nos pensando que a teratologia, ou estudo dos monstros, com que se distinguiu o professor Wolff a despeito da desconfiança dos sábios razoáveis, esclareceu muitos aspectos da biologia. Serviu-nos de apoio outro exemplo: o de Charles Fort, esse americano malicioso de que já falamos.
Foi dentro do espírito fortiano que orientamos as nossas investigações sobre acontecimentos da história recente. Portanto, não nos pareceu indigno de atenção o fato de o fundador do nacional-socialismo ter realmente acreditado na vinda do super-homem.
A 23 de Fevereiro de 1957, um homem-rã procurava o corpo de um estudante afogado no Lago do Diabo, na Boêmia. Regressou à superfície, pálido de pavor, incapaz de articular um som. Quando recuperou o uso da palavra revelou que acabava de ver, sob as águas frias e densas do lago, um alinhamento fantasmagórico de soldados alemães de uniforme, e uma caravana de carros atrelados, com os cavalos em pé.
Ó Noite, o que significam esses guerreiros lívidos? . . . De certa maneira, também nós mergulhamos no Lago do Diabo. Nos anais do processo de Nuremberg, em milhares de livros e de revistas e nos testemunhos pessoais, reunimos uma coleção de singularidades. Organizamos o nosso material em função de uma hipótese de trabalho que talvez não fôssemos capazes de elevar à dignidade de uma teoria, mas que um grande escritor inglês desconhecido, Arthur Machen, brilhantemente exprimiu : Existem à nossa volta sacramentos do mal, da mesma forma que existem sacramentos do bem, e a nossa vida e os nossos atos desenrolam-se, segundo creio, num mundo insuspeitado, cheio de cavernas, sombras e habitantes crepusculares. A alma humana ama o dia. Acontece-lhe também amar a noite, com igual ardor, e esse amor pode conduzir os homens, como as sociedades,  a ações criminosas e desastrosas que aparentemente desafiam a razão, mas que, no entanto, se revelam explicáveis se nos colocarmos numa determinada óptica. Precisaremos o caso um pouco adiante ao dar de novo a palavra a Arthur Machen.
Nesta parte do nosso trabalho pretendemos fornecer a matéria-prima de uma história invisível. Não somos os primeiros. John  Buchan já assinalara estranhas correntes subterrâneas sob os acontecimentos históricos. Uma entomologista alemã, Margaret Boveri, tratando dos homens com a frieza objetiva que utiliza na observação dos insetos, escreveu uma História da Traição no Século Vinte, cujo primeiro volume tem por título História Visível e o segundo História Invisível.
Mas de que história invisível se trata? O termo é cheio de armadilhas. O visível é tão rico e, no fim de contas, ainda tão pouco explorado, que se lhe pode sempre descobrir fatos que justificam não importa que espécie de teoria, e conhecem-se inúmeras explicações da história devido à ação oculta dos Judeus, dos Franco-Maçons, dos Jesuítas ou do Banco Internacional. Essas explicações parecem-nos primárias. Aliás, constantemente evitamos confundir aquilo a que chamamos o realismo fantástico com o ocultismo, e as molas secretas da realidade com o folhetim. (No entanto notamos muitas vezes que a realidade era falha de dignidade: ela não escapa ao romanesco e não se podem eliminar fatos sob o pretexto de que parecem sair, justamente, de um folhetim.)
Acolhemos portanto os fatos mais bizarros sob a reserva de os podermos autenticar. Por vezes preferimos dar a impressão de procurar o sensacional ou de nos deixarmos arrastar pelo gosto do estranho, a descurar tal aspecto aparentemente demencial. Que o resultado em nada se assemelha aos retratos da Alemanha nazista geralmente admitidos. A culpa não é nossa. Tínhamos por objeto de estudo uma série de acontecimentos fantásticos. Não é habitual, mas é lógico pensar que, atrás desses acontecimentos, podem esconder-se realidades extraordinárias. Por que motivo teria a história o privilégio sobre as outras ciências modernas de poder explicar todos os fenômenos de maneira satisfatória para a razão?
Seguramente o nosso retrato não está de acordo com as idéias aceites, e é fragmentário. Nada quisemos sacrificar à coerência. Esta recusa de sacrificar à coerência é aliás uma tendência muito recente em história, assim como a tendência para a verdade: Aqui e além aparecerão lacunas: o leitor deverá pensar que o historiador de hoje abandonou a antiga concepção segundo a qual a verdade era atingida assim que estivessem aplicadas, sem espaços vazios nem excedentes, todas as peças de um puzzle a recompor. O ideal da obra histórica deixou de ser para ele um belo mosaico muito acabado e muito liso: é como um campo de pesquisas que ele a concebe, com o seu caos aparente onde se justapõem as escavações vagas, as coleções de pequenos objetos evocadores e,  aqui e além, as belas ressurreições de conjunto e as obras de arte.
O físico sabe que são pulsações de energia anormais, excepcionais, que revelaram a fissão do urânio e portanto abriram espaços infinitos para o estado da radioatividade. Foram a pulsações do extraordinário que nós procuramos.
Um livro de Lord Russell de Liverpool: Rápida História dos Crimes de Guerra Nazistas, publicado onze anos depois da vitória dos Aliados, surpreendeu os leitores franceses pelo seu tom de extrema sobriedade. Vulgarmente, nesta matéria, a indignação substitui a explicação. Neste livro falam por si fatos horríveis, e os leitores verificaram que continuavam sem nada perceber de tanta atrocidade. Exprimindo esse sentimento, um especialista eminente escrevia no jornal Le Monde:
A questão que se põe é a de saber como é que tudo isto foi possível em pleno século  e em regiões que passam por ser as mais civilizadas do Universo.
É estranho que tal pergunta, essencial, primordial, se ponha aos historiadores doze anos depois da abertura de todos os arquivos possíveis. Mas será que ela se apresenta realmente aos historiadores? Não é muito certo. Pelo menos tudo se passa como se eles pretendessem esquecê-la, logo depois de ser evocada, obedecendo assim ao movimento da opinião estabelecida que tal pergunta incomoda. Deste modo, acontece que o historiador seja testemunha da sua época, recusando-se a fazer história. Mal escreveu: A questão que se põe é saber se.. . , apressa-se a continuar para que ela se não possa pôr:
Eis, acrescenta imediatamente, o que o homem faz quando é abandonado ao livre impulso dos seus instintos, a um tempo desenfreados e sistematicamente pervertidos.
Estranha explicação histórica, a dessa evocação do mistério nazista por meio dos tópicos gastos da moral vulgar! No entanto foi a única explicação que nos deram, como se houvesse uma vasta conspiração das inteligências para fazer das páginas mais fantásticas da história contemporânea qualquer coisa de redutível a uma lição de história primária sobre os maus instintos. Dir-se-ia que uma pressão considerável incide sobre a história a fim de que esta seja reduzida às minúsculas proporções do pensamento racionalista convencional.
Entre as duas guerras, observa um jovem filósofo, por não terem denunciado qual o furor pagão que enfunava as bandeiras inimigas, os antifascistas não souberam profetizar o odioso futuro da vitória hitleriana.
Eram raras e pouco escutadas as vozes que anunciavam no céu alemão a substituição da Cruz Gamada em vez da de Cristo, negação pura e simples dos Evangelhos.
Não é inteiramente nossa esta visão de Hitler anticristo. 
Achamos que ela não é suficiente para esclarecer totalmente os fatos. Mas situa-se, pelo menos, ao nível conveniente para julgar este extraordinário momento da história.
É esse o problema. Não estaremos ao abrigo do nazismo, ou antes de certas formas do espírito luciferino de que o nazismo projetou a sombra sobre o Mundo, senão quando percebermos e afrontarmos na nossa consciência os aspectos mais fantásticos da sua aventura.
Entre a ambição luciferina de que o hitlerismo foi uma trágica caricatura, e o angelismo cristão que também tem a sua caricatura em fórmulas sociais; entre a tentação de atingir o sobre-humano, de conquistar o céu de assalto, e a tentação de se entregar a uma idéia ou a um Deus para que a condição humana seja transcendida; entre a recusa e a aceitação de uma transcendência, entre a vocação do mal e a do bem, ambos poderosos, profundos e secretos; - entre imensos movimentos contraditórios da alma humana e sem dúvida do inconsciente coletivo, representam-se tragédias de que a história convencional não se apercebe inteiramente, como que por receio de introduzir, com certos documentos e certas interpretações, impedimentos graves demais que a impeçam de descansar no âmago das sociedades.
O historiador que se ocupa da Alemanha nazista parece querer ignorar o que era o inimigo que foi abatido. É auxiliado nesse desejo pela opinião geral. É que ter abatido semelhante inimigo em conhecimento de causa exigiria uma concepção do mundo e do destino humano à medida da vitória. Vale mais pensar que acabamos por impedir que nos prejudicassem velhacos e loucos e que, no fim de contas, as pessoas de bem têm sempre razão. Eram velhacos e loucos, é certo. Mas não no sentido, mas não no grau em que o entendem as pessoas de bem. O antifascismo convencional parece ter sido inventado por vencedores que necessitavam de dissimular o seu vazio. Mas o vazio aspira.
O doutor Antony Laughton, do Instituto Oceanográfico de Londres, fez mergulhar uma máquina de filmar a 4500 metros de profundidade, ao largo das costas da Irlanda. Sobre as fotografias distinguem-se muito nitidamente marcas de pés pertencentes a uma criatura desconhecida. Após o abominável homem das neves, eis que se insinua na imaginação e na curiosidade dos homens este irmão da criatura dos píncaros, o abominável homem dos mares, o desconhecido dos abismos. Num certo sentido, a história, para os observadores do nosso gênero, é semelhante ao velho oceano que a sonda amedronta.
Esquadrinhar a história invisível é um exercício muito são para o espírito. Desembaraçamo-nos da repugnância pelo inverossímil que é natural, mas que muitas vezes paralisou o conhecimento. Esforçamo-nos, em todos os domínios, por resistir a essa repugnância pelo inverossímil, quer se trate das forças de ação dos homens, das suas crenças, ou das suas realizações. Assim, estudamos certos trabalhos da secção clandestina dos serviços de informação alemães. Essa secção elaborou, por exemplo, um longo relatório sobre as propriedades mágicas dos campanários de Oxford, que, segundo os seus cálculos, impedem que as bombas caiam sobre essa cidade. Que haja nisso uma aberração não é discutível, mas que essa aberração tenha grassado entre homens inteligentes e responsáveis, e que esse fato elucida diversos pontos da história visível e da história invisível, também não é discutível.
Para nós, os acontecimentos têm muitas vezes razões de ser que a razão ignora, e as linhas de força da história podem ser tão invisíveis e no entanto tão reais como as linhas de força de um campo magnético.
É possível ir mais longe. Aventuramo-nos até onde esperamos que se aventurem os historiadores do futuro com meios superiores aos nossos. Aconteceu-nos tentar aplicar à história o princípio das ligações não causais que o físico Wolfgang Pauli e o psicólogo Jung recentemente propuseram. Era a este princípio que eu há pouco aludia ao falar de coincidências. Para Pauli e Jung, acontecimentos independentes entre si poderiam ter relações sem causa, mas no entanto significativas à escala humana. São as coincidências significativas, as linhas onde os dois sábios vêem um fenômeno de sincronicidade que revela ligações insólitas entre o homem, o tempo e o espaço, e a que Claudel magnificamente chamava a jubilação dos acasos. Uma doente está estendida no divã do psicanalista Jung. Oprimem-na perturbações nervosas muito graves, mas a análise não progride. A paciente, prisioneira de um espírito extremamente realista, agarrada a uma espécie de ultralógica, torna-se impenetrável aos argumentos do médico.
Uma vez mais, Jung ordena, propõe, suplica:
- Abandone-se, não procure compreender, e conte-me simplesmente os sonhos que tem.
- Sonhei com um escaravelho - responde finalmente a dama, entre dentes.
Nesse momento ouvem-se pequenas pancadas contra a vidraça. Jung abre a janela e um belo escaravelho dourado entra na sala fazendo ressoar os seus élitros. Perturbada, a paciente abandona-se por fim e a análise pode realmente começar, e prosseguirá até à cura.
Jung cita muitas vezes este incidente verídico que tem a forma de um conto árabe. Na história de um homem, como na história propriamente dita, na sua opinião, há muitos escaravelhos de ouro.
A complexa doutrina da sincronicidade, em parte motivada pela observação de tais coincidências, seria talvez de natureza a modificar totalmente a concepção da história. A nossa ambição não vai tão longe nem tão alto. O que pretendemos é chamar a atenção para os aspectos fantásticos da realidade. Nesta parte do nosso trabalho dedicamo-nos à pesquisa e interpretação de certas coincidências, a nossos olhos significativas. Podem não o ser para outros.
Aplicando a nossa concepção realista fantástica à história, entregamo-nos a um trabalho de seleção. Por vezes escolhemos fatos de pouca importância, mas aberrantes, porque, em certa medida, era à aberração que pedíamos a luz. Uma irregularidade de alguns segundos no movimento do planeta Mercúrio basta para abalar o edifício de Newton e justificar Einstein. Da mesma forma, parece-nos que alguns dos fatos que pusemos em realce podem tornar  necessária a revisão das estruturas da história cartesiana.
Poder-se-á utilizar este método para prever o futuro? Acontece-nos também sonhar com isso. Em O Chamado Quinta-Feira, Chesterton descreve uma brigada de polícia política especializada na poesia. Evitou-se um atentado porque um polícia compreendeu o sentido de um soneto. Há  grandes verdades atrás dos gracejos de Chesterton. Correntes de idéias que passam despercebidas ao observador oficial, escritos, obras às quais o sociólogo não está atento, fatos sociais demasiado pequenos e demasiado aberrantes a seus olhos,  anunciam talvez com mais certeza os acontecimentos futuros do que os fatos visíveis e os grandes movimentos aparentes do pensamento com os quais ele se preocupa.
O clima de terror do nazismo, que ninguém pôde prever, estava anunciado nas horríveis narrativas do escritor alemão Hans Heinz Ewers: A Mandrágora e No Terror. Ele viria a ser o poeta oficial do regime  e escreveria o Horst Wessel Láed. Não é impossível que certos romances, certos poemas, quadros ou estátuas, desprezados até pela crítica especializada, nos indiquem as figuras exatas do mundo de amanhã.
Dante, em A Divina Comédia, descreve com precisão a Cruz do Sul, constelação invisível no hemisfério norte e que nenhum viajante do seu tempo pode ter descoberto. Swift, em A Viagem a Laputa, descreve as distâncias e os períodos de rotação dos dois satélites de Marte, desconhecidos na época. Quando o astrônomo americano Asaph Hall os descobre em 1877 e se apercebe de que as suas medidas correspondem às indicações de Swift, invadido por uma espécie de pânico chama-lhes Phobos e Deimos: medo e terror. Em 1896, um escritor inglês, M. P. Schiel, publica um conto onde se vê um bando de criminosos horríveis destruindo a Europa, matando famílias que supõem prejudiciais ao progresso da humanidade e queimando os cadáveres. Intitula o seu conto: Os S.S.
Goethe dizia: Os acontecimentos futuros projetam a sua sombra em frente, e pode ser que se encontre, longe do que mobiliza a atenção geral, em obras e atividades humanas estranhas ao que nós chamamos o movimento da história, a verdadeira detecção e a expressão dessas ressacas do futuro.
Existe um fantástico evidente que o historiador encobre com pudor de explicações frias e mecânicas. A Alemanha, no momento em que nasce o nazismo, é a pátria das ciências exatas. O método 1 Aterrado também pelo fato de que esses satélites aparecem bruscamente. Telescópios mais importantes que o seu não os tinham avistado na véspera. Parece, muito simplesmente, que ele foi o primeiro a examinar Marte nessa noite. Hoje, depois do lançamento do Spoutnik, os astrônomos começam a escrever que talvez se trate de satélites artificiais, lançados no dia da observação de Hall. (Robert S. Richardson, do observatório do monte Palomar. Comunicação a propósito da posição de Marte, 1954). alemão, a lógica alemã, o rigor e a probidade científica alemã são universalmente considerados. 
O Herr Professor incita por vezes à caricatura, mas está rodeado de consideração. Ora é neste ambiente, de um cartesianismo de chumbo, que uma doutrina incoerente e em parte demencial se propaga rápida, irresistivelmente, a partir de um foco minúsculo. No país de Einstein e de Planck começa a ser professada uma física ariana. No país de Humboldt e de Haeckel começa-se a falar de raças. Pensamos que não é possível explicar tais fenômenos pela inflação econômica. Não é este o cenário de fundo para semelhante bailado. Pareceu-nos muito mais eficaz ir procurar junto de certos cultos estranhos e certas cosmogonias aberrantes, até agora desprezadas pelos historiadores. Essa desatenção é muito singular. As cosmogonias e os cultos de que vamos falar gozaram na Alemanha de proteção e encorajamentos oficiais. Desempenharam um papel espiritual, científico, social e político relativamente importante. Com esse cenário de fundo compreende-se melhor o bailado.
Limitamo-nos a um momento da história alemã. Poderíamos igualmente mostrar, por exemplo, para apreender o fantástico na história contemporânea, a invasão das idéias asiáticas na Europa no momento em que as idéias européias provocam o despertar dos povos da Ásia. Aí está um fenômeno tão desmoralizante como o espaço não euclidiano ou os paradoxos do núcleo atômico.  O historiador convencional, o sociólogo comprometido não vêem, ou recusam ver, esses movimentos profundos que não se adaptam àquilo a que eles chamam os movimentos da história. Eles prosseguem imperturbavelmente a análise e a predição de uma aventura dos homens que não se assemelha nem aos próprios homens, nem aos sinais misteriosos mas visíveis que estes trocam com o tempo, o espaço e o destino.
O amor, diz Jacques Chardonne, é muito mais do que o amor. No decorrer das nossas investigações adquirimos a certeza de que a história é muito mais do que a história. Essa certeza é tônica. A despeito do crescente peso dos fatos sociais e das crescentes ameaças dirigidas contra a pessoa humana, nós vemos o espírito e a alma da humanidade continuar a acender aqui e além as suas fogueiras, que não são cada vez mais pequenas. Apesar de os corredores da história, aparentemente, serem mais estreitos, temos a certeza de que o homem não perde ao percorrê-los o fio que o liga á imensidade. Estas imagens são à Vítor Hugo, mas exprimem bem a nossa visão. Adquirimos essa certeza penetrando no real: é no mais íntimo que o real é fantástico e em certo sentido, misericordioso."

“Ainda que as sombrias máquinas estejam a funcionar Não se atemorize demasiado, amigo. . . Quando os pedantes chamaram a nossa atenção Para a fria mecânica com que os acontecimentos Se viriam a desenrolar, as nossas almas disseram em surdina: É possível, mas existem outras coisas”. . . 

(Prefácio ao Napoleão de Notting Hill, de Chesterton, 1898.)






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