terça-feira, 29 de março de 2011

1984 e os Motivos das Marteladas!

Em 1984, tudo aquilo que ao acaso viria se tornar "formas de controle", se convertem em Ministérios. As perceptivas ameaças fascistas/opressivas se expressam no imaginário da vida em terror surreal. Uma liberdade transitiva de lugar de observação é emanada em palavras por diversos personagens,  fantásticos, que vivem sob um regime totalitarista e que ao agir aplicam um tipo recorrente de filosofia justificativa das práticas cotidianas, das etapas de meditação do indivíduo, em perceber que sempre está sendo observado e sujeito à punição. Dessa forma, uma complexidade filosófica envolve as ações do personagem Winston e suas escolhas, (as negações e os consentimentos), são refletidas no espelho da guerra e das execuções públicas (para servir de exemplo) que ocorrem vez por outra. "Os dias de ódio" vividos pelo protagonista Winston,  refletem possíveis relações das pessoas com o que é público e avassalador, com o sentimento de fúria desmedida e com o caos e retaliação da guerra contra os inimigos do Partido.  Majoritariamente George Orwell, em seu livro, colocou em problemática o espectro do totalitarismo como conseqüência final de um sistema capitalista (uma leitura obrigatória para aqueles os que aos poucos tentam decifrar, permanecendo do lado de fora, a forma de se fazer política no mundo moderno, tanto quanto aos que se dizem socialistas), uma leitura não tão distante daquilo que vivemos. O autor apresenta o "duplipensar" (termo em Novilíngua, a que se refere ao "controle da realidade", abrangendo "muita coisa mais") como método reflexivo dos membros do Partido tão sistemático. Uma das frases que Winston escreveu em seu sigiloso diário diz:


"Não se revoltarão enquanto não se tornarem conscientes, e não se tornarão conscientes enquanto não se rebelarem."


Agora vale a longa citação sobre a menção de Winston para aproximarmos em imaginação o universo  explícito no livro com o que observamos em leitura da sociedade contemporânea:

"Refletiu que a frase poderia ser quase a transposição de um dos textos básicos do Partido. O Partido proclamava, naturalmente, ter libertado os proles da servidão. Antes da Revolução eram oprimidos pelos capitalistas, tinham sido chicoteados e submetidos à fome, as mulheres forçadas a trabalhar nas minas de carvão (na verdade, as mulheres ainda trabalhavam nas minas), as crianças vendidas às fábricas com a idade de seis anos. Simultaneamente, fiel aos princípios do duplipensar, o Partido ensinava que os proles eram naturalmente  inferiores, que deviam ficar em sujeição, como animais, pela aplicação de algumas regras simples. Pouquíssimo se sabia a respeito dos proles. Não era necessário saber muito. Contanto que continuassem a trabalhar e se reproduzir não tinham importância  suas outras atividades. Abandonados a si mesmos, como gado solto nas planuras argentinas, haviam regressado a um modo de vida que lhes parecia natural, uma espécie de tradição ancestral. Nasciam, cresciam nas sarjetas, iam para o trabalho aos doze, atravessavam um breve período de floração da beleza e do desejo sexual, casavam-se aos vinte, atingiam a maturação aos trinta, e em geral, morriam aos sessenta. O trabalho físico pesado, o trato da casa e dos filhos, as briguinhas com a vizinhança, o cinema, o futebol, a cerveja e, acima de tudo, o jogo, enchiam-lhes os horizontes. Mantê-los sob controle não era difícil. Alguns agentes da Polícia do Pensamento estavam sempre entre eles, soltando boatos, marcando e eliminando os poucos indivíduos julgados capazes de se tornar perigosos; mas não se tentava doutriná-los com a ideologia do Partido. Não era desejável que os proles tivessem sentimentos políticos definidos. Tudo que lhes exigia era uma espécie de patriotismo primitivo ao qual se podia apelar sempre que fosse necessário levá-los a aceitar ações menores ou maior expediente de trabalho. E mesmo quando ficavam descontentes, como às vezes acontecia, o descontentamento não os conduzia a parte alguma porque, não tendo idéias gerais, só podiam focalizar a animosidade em ridículas reivindicações específicas. Os males maiores geralmente lhes fugiam à observação. A maioria dos proles nem tinham teletelas em casa. Até a polícia civil interferia pouquíssimo com eles. Havia enorme criminalidade em Londres! todo um subterrâneo de ladrões, bandidos, prostitutas, vendedores de narcóticos e contraventores de todo tipo; mas como tudo se passava entre os próprios proles, não tinha importância. Em todas as questões morais, permitia-se-lhes obedecerem ao código ancestral. O puritanismo sexual do Partido não lhes era imposto. A promiscuidade não era punida; e o divórcio era permitido. Nesse particular, até a adoração religiosa teria sido permitida se os proles demonstrassem algum sintoma de desejá-la ou dela carecerem. ninguém desconfiava deles. Como dizia o lema do Partido: "Os proles e os animais são livres"."

Tal transcrição pode servir para elucidar quanto estamos próximos do mundo fantástico e que as surpresas podem ser  iminentes. O ser se duplica em desconfiança, pois não é demais pensar em um "homem duplo". Vivemos sob o mundo das aparências e o julgamento equivocado é recorrente. E enquanto julgamos uns aos outros, nós proles, não nos damos conta que o Partido continua agindo impetuosamente. E o mundo é vivo e sorrateiro. Não há preparo que não seja para um fim. Será que faz parte dessa "intima ligação entre a castidade e a ortodoxia política"? "Em geral, quanto maior a compreensão, maior a ilusão; quanto mais inteligente, menos ajuizado"? Pois, de que serve a liberdade se não sabemos o que fazer com ela? E se há liberdade e não há o instrumentos de libertação? Então, "liberdade é escravidão"? Aí está o motivo da criação deste personagem de guerra, Rahu, tão próximo do fantástico fanatismo do doutrinarismo, chegando a se tornar quase antidoutrinarista, mas não tão longe da realidade caótica que nos encontramos. Em meio há uma violenta tradição, necessita-se sempre mais de algo que exerça a continua martelada da liberdade expressão promovida pelo livre pensar/falar. Nada demais, somente um personagem que fomenta a revolução da cultura sem paredes. Pense, "é preciso escolher, descansar ou ser livre". Liberdade é atividade! Desvinculado do ser que dorme e entra no mundo da tradição mundana e violenta, um ser acordado, trajado para guerra, necessita da atividade que é sempre questionadora e volta-se para si mesma, tornando o sistema nervoso seu pior inimigo. "Compreendo COMO: não compreendo PORQUÊ."

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